Tenho evitado acordar-te. Talvez devesse fazê-lo de uma vez para tentar sacudir a inércia desses músculos que teimam seguir caminhos de vãs promessas e desejos frustrados. É tanto o ódio que te rasga a pele e tanta a indulgência da tua lassidão que afasto a possibilidade de arruinar esse sono de vazio profundo em que mergulhas o teu olhar. Por isso tenho evitado acordar-te. Embrulho as mãos no colo e sigo diferente destino na esperança de voltar a sorrir com a facilidade dos que comodamente acreditam.
Às vezes ainda te encontro em tantas palavras escritas em papéis brancos rabiscados a tinta azul, mas rapidamente volto a adormecer-te como se fosses vazio em cada regresso fustigado pela memória. E resta saber se o és. Lembro-me que te desapetrechei um dia dessa armadura de altivez camuflada e percebi-te sombra de gente. Mera sombra alimentada de alheias lágrimas e angústias, das fraquezas dos que dizes pequenos e infelizes. Parasita de escuridão, roedor de verdades e mentiras, pestilento de dores inacabadas. Mesmo assim, ainda gostava de te ver acordado num mundo em que é respirável a verdade, em que são ofegantes os sentimentos autênticos, no meu mundo, no espaço reservado à ansiedade apaixonada pela vida e seus segredos. Pode ser que um dia me dispa de receios e me encha de coragem e tente novamente acordar-te. Pode ser que nesse dia consigas perceber de que é feita a felicidade e que a vida não tem que ser sempre essa experiência de quase morte errante a que habituaste o teu pulsar. Por enquanto, porém, desacredito-te e à possibilidade da tua reconversão. E por isso tenho impedido o teu despertar no meu mundo.
Monday, March 13, 2006
Tuesday, February 07, 2006
Sim
Senti o teu olhar ferido a questionar o meu, dividido entre a necessidade de procura e a ternura do abandono. Lembro-me de ter ficado presa no mundo dos meus mistérios, internamente mergulhada nas insónias decorrentes das promessas viciadas por palavras quentes. Lembro-me da imagem que guardei do teu rosto. Do teu olhar humedecido a perscrutar ao milímetro todos os movimentos do meu corpo, como se esses pudessem denunciar o sentido da minha decisão. Perdi a voz por instantes, na tentativa de lavar a alma no silêncio e de abrigar de ti meu coração. Ou de mim. Não sei. Na distracção do meu esforço, percebi, porém, que começa em ti tudo o que se sente. Que o destino dos meus passos é o teu caminho. Mesmo antes de debitar em palavras estes pedaços soltos de pensamento, concedeste-me um beijo teu sem qualquer condição. Tivesse tido eu a oportunidade e teria rasurado o segundo anterior de tristeza em teu coração. Pediste-me um nada. Porém, renovada de razões, dou-te agora a vida em pedaços inteiros de mim. Sim. É um sim.
Senti o teu olhar ferido a questionar o meu, dividido entre a necessidade de procura e a ternura do abandono. Lembro-me de ter ficado presa no mundo dos meus mistérios, internamente mergulhada nas insónias decorrentes das promessas viciadas por palavras quentes. Lembro-me da imagem que guardei do teu rosto. Do teu olhar humedecido a perscrutar ao milímetro todos os movimentos do meu corpo, como se esses pudessem denunciar o sentido da minha decisão. Perdi a voz por instantes, na tentativa de lavar a alma no silêncio e de abrigar de ti meu coração. Ou de mim. Não sei. Na distracção do meu esforço, percebi, porém, que começa em ti tudo o que se sente. Que o destino dos meus passos é o teu caminho. Mesmo antes de debitar em palavras estes pedaços soltos de pensamento, concedeste-me um beijo teu sem qualquer condição. Tivesse tido eu a oportunidade e teria rasurado o segundo anterior de tristeza em teu coração. Pediste-me um nada. Porém, renovada de razões, dou-te agora a vida em pedaços inteiros de mim. Sim. É um sim.
Monday, January 23, 2006
“Não, não quero nada
Já disse que não quero nada
(…)
A única conclusão é morrer (…)”
Álvaro de Campos
A certa altura deixei de me ver.
Acho que foi por ter ousado sacudir o pó do passado e revisitado o meu outro lugar. Aí tudo me pareceu tão etéreo, tão mais denso, tão mais luminoso, tudo tão maior que, num suspiro silencioso, dos que traduzem tudo o que nos vai na alma, não mais senti vontade de regressar à vida. Pode ser que isto só aconteça dentro de mim, a morte, e que os meus passos vão continuando a suceder-se no tempo real, tão autenticamente que ninguém ousará questionar a sua mentira.
Até à exaustão, continuo, porém, a pintar todas as formas de um “eu” desconhecido, em tons de um cinzento abstracto. Com movimentos irregulares, nervosos e forçados, tento materializar-me com todas as cores e formas possíveis, mas é na penumbra que o meu olhar se estende. Desisto. Desisto de tentar perceber se fui eu que me perdi ou se foi o meu lugar que se esqueceu de mim. A partir do instante em que os papéis me sobram rasgados já de nada me vale tentar alcançar a compreensão dos pequenos nadas que restam na consciência.
A certa altura deixei de me ver. E de querer alguma coisa. E resta-me o nada, que é, mesmo assim, maior do que sou.
Já disse que não quero nada
(…)
A única conclusão é morrer (…)”
Álvaro de Campos
A certa altura deixei de me ver.
Acho que foi por ter ousado sacudir o pó do passado e revisitado o meu outro lugar. Aí tudo me pareceu tão etéreo, tão mais denso, tão mais luminoso, tudo tão maior que, num suspiro silencioso, dos que traduzem tudo o que nos vai na alma, não mais senti vontade de regressar à vida. Pode ser que isto só aconteça dentro de mim, a morte, e que os meus passos vão continuando a suceder-se no tempo real, tão autenticamente que ninguém ousará questionar a sua mentira.
Até à exaustão, continuo, porém, a pintar todas as formas de um “eu” desconhecido, em tons de um cinzento abstracto. Com movimentos irregulares, nervosos e forçados, tento materializar-me com todas as cores e formas possíveis, mas é na penumbra que o meu olhar se estende. Desisto. Desisto de tentar perceber se fui eu que me perdi ou se foi o meu lugar que se esqueceu de mim. A partir do instante em que os papéis me sobram rasgados já de nada me vale tentar alcançar a compreensão dos pequenos nadas que restam na consciência.
A certa altura deixei de me ver. E de querer alguma coisa. E resta-me o nada, que é, mesmo assim, maior do que sou.
Wednesday, January 04, 2006
Todos os dias em que não estiveres irei escrever-te. Nas palavras nada do que sinto pode caber, mas escreverei. Para não adivinhar a distância e o passado. Para sentir menos. Pode ser que consiga pendurar na parede do teu coração a minha janela, desarrumar tudo e estender-me no teu mundo, na esperança que me dês a chave. Ou que me abras a porta. Para espalhar pedaços de céu, para sempre, nos teus minutos. Esse teu silêncio diz mais de ti do que se dissesses. E é por isso que te acredito mesmo que continues a fugir. E quero que me deixes. Foge sempre para que nunca te alcance. Para que o sonho me faça correr. Mesmo na ausência de hoje, em que quase te sinto como se fosses gente, vale mais pintar os dias de ternura e deixá-los respirar sorrisos do que te chorar. Não é difícil. Deixar a marca da doçura esbater as manchas esborratadas da angústia. Instantes há em que desejo que te engasgues violentamente nessa mágoa que te veste Pode ser que, de uma vez por todas, me pendures na janela do teu coração e me deixes desarrumar tudo. Ou que me abras a porta. Para aprenderes a agarrar os minutos como pedaços de céu. E é por isso que em todos os dias da tua ausência escrever-te-ei, ainda que nas palavras nada do que sinto possa caber…
Saturday, November 19, 2005
À medida que ias falando percebi o muro que nos impedia a comunicação, no marasmo de palavras incongruentes que ias soltando inexpressivamente. Quase preferi o teu silêncio de outrora, sempre era mais reconfortante do que essas linhas nervosas que debitavas para me fazer acreditar na tua feliz decadência. Seguia atrás de ti, subi mais escadas escabrosas e dei de caras com outra sala, mais pequena, suada, cinzenta nos modos, a sala onde adormecias todas as noites com sonhos vazios para o destino. Estendeste o teu saco cama e colocaste a minha mochila ao lado. Ao fundo, ainda dormiam dois rapazes, parasitas do dia, frouxamente agarrados a garrafas de cerveja deixadas a meio, escorregadas no chão incolor. Aquela sala tinha duas janelas que davam para a parte de trás de outro prédio, pelo que a luz do sol só a muito custo conseguia espreguiçar aqueles corpos lânguidos e desmaiados da vida. Percebi a monotonia e o vazio mas quis acreditar que eram fruto do meu pessimismo e da minha incerteza. Continuavas a falar e eu já nem te ouvia. Não queria saber se estavas feliz, só sentir o teu denso silêncio para que o meu coração pudesse novamente bater ao teu ritmo numa sensação baça de felicidade. Alcancei-te a mão e pedi-te a paz que já não conheces. Caí no chão em pranto dorido por perceber de repente que já não é tua a mão capaz de me sacudir do vicioso e doloroso veneno da morte.
Thursday, November 10, 2005
É no escuro que me encontro quando de ti me lembro, do teu olhar vazio e faminto de dor. Pareces sombra feliz, vives no ermo chamado angústia, atormentas a pureza do meu espaço e ameaças a inevitabilidade da minha fraqueza. Este latejo cadenciado de nervos sonoros espezinha o meu corpo rastejante no chão frio desta casa de que não lhe conheço a cor, é nascente destas lágrimas que não sinto, mas que me matam a alma e impõe-me a estagnação no caminho. Medo. De mim, do pulsar descoordenado no coração dirigido a ti. De ti, da tua ausência agora irreconhecível e extraviada do horizonte de um abraço. De nós, do abandono das defesas que nos protegem e dos muros que o silêncio ergue. Medo. Da consciência de perder a cor do tempo e dos sorrisos e da transparência e da verdade. Afasto-te do meu mundo, afunilo a tua imagem, a tua existência, no esgoto moribundo da desgraça e espero apenas. Estática espero ouvir a voz que me abandona, aquela que se silencia sempre que és presente. E escuto. E sigo para o caminho que o meu coração indica. E é para longe de ti.
Wednesday, November 09, 2005
O amor. Sempre o amor. A vida. Chegar a um ponto e perceber que não se está sozinho neste lugar. Encontrar alguém que chegou ao mesmo tempo. O início. O momento crucial da decisão de se ser feliz. O amor. Sempre o amor. Tu. A minha vida, o sangue que movimenta o meu corpo, flutua no meu coração e volta sempre a ti. Regresso a ti a cada início de manhã, em cada fusão dos nossos corpos e sou tua. Só sei ser tua. És o fim da minha ausência, a felicidade que nunca esperei, a paz que me entorpece os sentidos e que extasia o meu ânimo. És. E fazes-me feliz sempre que estás perto, nas horas em que me abraças no perdão concedido, em todos os momentos em que me obrigas a dar mais sem muros de medo à volta. O amor. Sempre o amor. A restituir-me a força de que preciso para lutar por nós, numa paixão desenfreada, esgotante, gratificante. A fazer-te destino dos meus passos sem outros obstáculos ou prioridades. A cada dia que passa sinto-me mais perto. E avanço cada vez mais para receber daquilo que aumenta o coração. E sou tua. Só sei ser tua. Neste amor… sempre neste amor...
Thursday, October 27, 2005
Saudade...
Saudade tem todos os sabores da comida da minha mãe, do cheiro perfumado da sua meiguice, tem as cores de todos os sítios onde vi o pôr do sol, saudade tem o rosto do meu irmão, desde que ele mal abria ainda os olhos.
Que saudades do silêncio de casa, do vento morno das praias a fazer rodopiar os meus cabelos, dos papagaios de papel esvoaçantes conduzidos pelas mãos fortes do meu pai. Saudade dos cânticos de Natal a entoar pela casa cheia de vida e das batatas doces a sair do forno pela mão da minha avó.
Tenho saudades de correr para tudo, de ser criança, protegida do mundo, de amar inocentemente sem limites e de me deixar amar dessa mesma forma.
Saudade é sobretudo palavra de amor, de paixão, a palavra que une todos os pedaços de mim, de tudo o que jamais poderei esquecer, a palavra que me resgata do meu próprio corpo e derrama sobre mim a sua melancolia forte. E é por isso que este meu corpo é tantas vezes, como hoje, invólucro estranho e vazio de mim…
Saudade tem todos os sabores da comida da minha mãe, do cheiro perfumado da sua meiguice, tem as cores de todos os sítios onde vi o pôr do sol, saudade tem o rosto do meu irmão, desde que ele mal abria ainda os olhos.
Que saudades do silêncio de casa, do vento morno das praias a fazer rodopiar os meus cabelos, dos papagaios de papel esvoaçantes conduzidos pelas mãos fortes do meu pai. Saudade dos cânticos de Natal a entoar pela casa cheia de vida e das batatas doces a sair do forno pela mão da minha avó.
Tenho saudades de correr para tudo, de ser criança, protegida do mundo, de amar inocentemente sem limites e de me deixar amar dessa mesma forma.
Saudade é sobretudo palavra de amor, de paixão, a palavra que une todos os pedaços de mim, de tudo o que jamais poderei esquecer, a palavra que me resgata do meu próprio corpo e derrama sobre mim a sua melancolia forte. E é por isso que este meu corpo é tantas vezes, como hoje, invólucro estranho e vazio de mim…
Friday, October 07, 2005
Porque a vida só vale por todas as pessoas que amamos
Declino o sono e avanço pela noite fria, sentindo-te tremer a meu lado na insónia estreita por onde passam eternidades vestidas de negro.
Doem-me os teus olhos cansados e perdidos entre o tudo e o nada, pólos equidistantes e recorrentes nos teus dias. Dói-me esse brilho de lágrimas contidas à força no teu espírito e esse peso soturno no teu coração. A sangrar apenas quero ser força no teu caminho, ser, sem saber quem. A luz inocente do teu ânimo. Doem-me os teus passos arrastados e fechados que olham para trás a cada movimento deturpado de determinação. Dar-te-ia se pudesse a paz de não te doer e ficaria em troca com o teu inferno. Para sempre.
Declino o sono e avanço pela noite fria, sentindo-te tremer a meu lado na insónia estreita por onde passam eternidades vestidas de negro.
Doem-me os teus olhos cansados e perdidos entre o tudo e o nada, pólos equidistantes e recorrentes nos teus dias. Dói-me esse brilho de lágrimas contidas à força no teu espírito e esse peso soturno no teu coração. A sangrar apenas quero ser força no teu caminho, ser, sem saber quem. A luz inocente do teu ânimo. Doem-me os teus passos arrastados e fechados que olham para trás a cada movimento deturpado de determinação. Dar-te-ia se pudesse a paz de não te doer e ficaria em troca com o teu inferno. Para sempre.
Thursday, September 29, 2005
As vozes do rio dizem-me para ficar. Mas porquê que a vida não pára de me indicar uma multiplicidade de caminhos diferentes em notas soltas e confusas como se eu as pudesse decifrar. Pelo menos há este rio que acalma a minha desesperança e conforta a minha decisão. Tenho a sensação de que regresso a casa enquanto a brisa suave me beija o corpo e os sonhos que pinto cheiram a infância, têm formas coloridas e são tão legítimos como outros sonhos quaisquer. O problema é que as pessoas já não sabem sonhar, pareço ouvir num chapinhar intenso de uma gaivota. Baixo a cabeça em jeito de assentimento. Hoje está a ser um dia mesmo estranho. Acordei sobressaltada mas parece que até agora ainda não despertei e ando a vaguear não sei muito bem por onde. As expectativas saem atabalhoadas e sem nexo e sinceramente já não consigo decifrar aquilo que quero. Não sou feliz, queria correr o mundo mas não sair do mesmo lugar, dava tudo para ser igual a todos os outros que se contentam com um pequeno espaço de realização, onde todos os passos são freneticamente estudados até à exaustão neste círculo vicioso de lugares comuns, desejos falsificados e respiração artificial. Angustia-me o fardo da cobardia e o ter de fazer só porque sim. Só preciso de força e desta coragem que lateja forte no meu cérebro. E de ti, rio navegante que me levas ao colo amparada nesses teus braços infinitos de distância solene e fazes renascer a fé no meu coração perdido.
Lágrima em mim
Sento-me no chão e descalço os sapatos que me magoam os pés completamente deformados. Olho de relance para um casal enfatuado e perfumado que passa por perto e sinto-me objecto desconhecido no meio desta calçada que não me pertence, um corpo estranho no caminho, que está aqui por acaso. E quando olho para estes sorrisos disfarçados de uma pose distinta que passam por perto mas que não me vêem tranquilizo a minha agitação por perceber que também eles não são felizes. Venderam a alma ao mundo e são adeptos cegos de duas regras: habitar e trabalhar. E o tempo serve-se deles, suga-lhes o sentido e preenche os seus corações com horários espartilhados, momentos de felicidade enganosa, alicia-os com um futuro que ninguém sabe muito bem se existe. E são tristes e como eu, corpos vazios e sem sentido que se dirigem para lado nenhum. Com o tempo também perdem dinâmica interior e é possível adivinhar em cada um destes olhares prazenteiros o desespero e a miséria que se lhes vai na alma.
Neste momento, passam dois miúdos de sapatilhas rotas e narizes ranhosos a rir. Aproximam-se, atiram-me insultos e um pontapé na minha perna estendida no passeio, fingem defender um remate e saltam por cima de mim. Ainda tento levantar a mão mas ela pesa-me demais para conseguir impor o respeito que os pais destas crianças não incluíram no lote da educação. Com o rosto espezinhado, volto a calçar os sapatos e desafio o meu corpo a deambular lá mais para diante por onde passam mais pessoas. Preciso de comer mas com este aspecto sou uma ameaça ambulante para a sociedade. E se lhes dissesse que já fui como eles um dia, que tive sentimentos, desejos e expectativas mas que optei por saltar sem pára-quedas de um avião em movimento e que o voo é inseparável da queda e que é por isso que nunca fiz nada e hoje não sirvo ninguém. Estou hoje aqui, danificada, pobre, suja, rasurada pelo espaço mas pelo menos não sou hipócrita cega, vagabunda de emoções como todos eles. E se lhes dissesse tudo isso. Esqueço-me porém que além de cegos andam todos surdos. Não podem ouvir. E isso dá vontade de rir. E mudos. Porque não falam não porque querem estar em silêncio mas porque não têm nada para dizer. Ainda no outro dia, enquanto os pombos se aninhavam perto de mim, impressionou-me ver tantos casais, tanta gente, na rua e nos restaurantes, que passam horas sem falar uns com os outros. Parece que escolhem os locais mais ruidosos para terem a certeza de que o barulho dos outros os liberta da obrigação de comunicar. E secretamente acho que estas vidas sociais intensas só servem para que uns se escapem dos outros e todos são obcecados em preencher o silêncio como se este não contivesse vida. Acho também que no fim, quando o barulho cessa por instantes, fica apenas uma insatisfação permanente e um completo receio pelo minuto seguinte. Gostava que uma dessas pessoas vestisse por um dia a roupa da minha personagem, fossem como eu, um nada exposto à canícula de sucessivos Verões e frios de desfiados Invernos. Perceberiam a força do silêncio. É uma pausa que muda a vida, altera a percepção do que estava antes e condiciona tudo o que vem a seguir. É a ele que me abraço quando tenho medo e são as suas vozes que sigo sempre que a realidade me atira pedras e me obriga a seguir para outro lado e para lado nenhum. E o rio. O rio tem sabedoria, acalma a impaciência e obriga a minha resignação face à morte e ao mundo que ainda há-de vir
Sento-me no chão e descalço os sapatos que me magoam os pés completamente deformados. Olho de relance para um casal enfatuado e perfumado que passa por perto e sinto-me objecto desconhecido no meio desta calçada que não me pertence, um corpo estranho no caminho, que está aqui por acaso. E quando olho para estes sorrisos disfarçados de uma pose distinta que passam por perto mas que não me vêem tranquilizo a minha agitação por perceber que também eles não são felizes. Venderam a alma ao mundo e são adeptos cegos de duas regras: habitar e trabalhar. E o tempo serve-se deles, suga-lhes o sentido e preenche os seus corações com horários espartilhados, momentos de felicidade enganosa, alicia-os com um futuro que ninguém sabe muito bem se existe. E são tristes e como eu, corpos vazios e sem sentido que se dirigem para lado nenhum. Com o tempo também perdem dinâmica interior e é possível adivinhar em cada um destes olhares prazenteiros o desespero e a miséria que se lhes vai na alma.
Neste momento, passam dois miúdos de sapatilhas rotas e narizes ranhosos a rir. Aproximam-se, atiram-me insultos e um pontapé na minha perna estendida no passeio, fingem defender um remate e saltam por cima de mim. Ainda tento levantar a mão mas ela pesa-me demais para conseguir impor o respeito que os pais destas crianças não incluíram no lote da educação. Com o rosto espezinhado, volto a calçar os sapatos e desafio o meu corpo a deambular lá mais para diante por onde passam mais pessoas. Preciso de comer mas com este aspecto sou uma ameaça ambulante para a sociedade. E se lhes dissesse que já fui como eles um dia, que tive sentimentos, desejos e expectativas mas que optei por saltar sem pára-quedas de um avião em movimento e que o voo é inseparável da queda e que é por isso que nunca fiz nada e hoje não sirvo ninguém. Estou hoje aqui, danificada, pobre, suja, rasurada pelo espaço mas pelo menos não sou hipócrita cega, vagabunda de emoções como todos eles. E se lhes dissesse tudo isso. Esqueço-me porém que além de cegos andam todos surdos. Não podem ouvir. E isso dá vontade de rir. E mudos. Porque não falam não porque querem estar em silêncio mas porque não têm nada para dizer. Ainda no outro dia, enquanto os pombos se aninhavam perto de mim, impressionou-me ver tantos casais, tanta gente, na rua e nos restaurantes, que passam horas sem falar uns com os outros. Parece que escolhem os locais mais ruidosos para terem a certeza de que o barulho dos outros os liberta da obrigação de comunicar. E secretamente acho que estas vidas sociais intensas só servem para que uns se escapem dos outros e todos são obcecados em preencher o silêncio como se este não contivesse vida. Acho também que no fim, quando o barulho cessa por instantes, fica apenas uma insatisfação permanente e um completo receio pelo minuto seguinte. Gostava que uma dessas pessoas vestisse por um dia a roupa da minha personagem, fossem como eu, um nada exposto à canícula de sucessivos Verões e frios de desfiados Invernos. Perceberiam a força do silêncio. É uma pausa que muda a vida, altera a percepção do que estava antes e condiciona tudo o que vem a seguir. É a ele que me abraço quando tenho medo e são as suas vozes que sigo sempre que a realidade me atira pedras e me obriga a seguir para outro lado e para lado nenhum. E o rio. O rio tem sabedoria, acalma a impaciência e obriga a minha resignação face à morte e ao mundo que ainda há-de vir
Tuesday, September 13, 2005
«… Aguardo a madrugada, impaciente
Os pés descalços na areia…»
Eugénio de Andrade
Despedida. Mais um dia de tantas palavras por dizer, pensadas durante as coisas inadiáveis que as adiam. Tomo o tempo até à exaustão, onde os minutos previsíveis sufocam o imprevisível e adormeço num sono em que os sonhos me chamam e eu vou. Vagueio por cidades onde as casas têm um tecto de céu e as estrelas cantam as canções da nossa história. Lentamente, foge-me a alma para o longe da tua ausência, onde a noite tem a tua pele e a lua o teu encanto, onde a mais longa distância diminui o caminho entre as nossas almas. Mais um dia infinito de quieto olhar. E outro, no suave embalo do nascente, onde procuro no conforto de um azul celeste a magia do teu regresso. E sempre encontro a coragem para partir e voltar sempre a este lugar onde te espero para sempre. A manhã do teu regresso perfumou-se de um céu luminoso que mereceu o aplauso aliviado do meu coração. Os meus pés dançaram guiados pela orquestra da minha respiração ansiosa. Reconstruí o meu sorriso e conduzi o meu espaço na tua direcção. Na hora em que sustentei o teu olhar num aveludado silêncio escudado na noite percebi que dizer-te é dizer uma vida inteira. Nos teus olhos de cor de ver tudo o que existe dentro dos meus há qualquer coisa que se reacende. Uma luz que é fogo e arde por dentro. Abraço-te como quem abraça a vida e sei que sempre que a minha força não quiser acordar, por mais distantes que os teus braços estejam, virás tu sacudir-me a lágrima e segredar-me as coisas que mantêm acesa a razão da minha saudade. E permito-me desaguar em ti porque o teu regresso serve o esquecimento da dor que é não te ter. E tudo à volta se esbate e se dissimula enquanto os nossos corpos flutuam no encanto inquebrável do nosso presente. E as mãos. O contorno das bocas nas pontas dos dedos. A maravilhosa fusão da nossa pele. Com os fios de seda e do linho com que se tecem os momentos marcantes amo-te e viajo no silêncio das palavras que não precisam de ser ditas. Na perfeição dos sentidos, anestesiada pela tua ternura, adormeço na certeza de que é contigo que quero estar porque só tu me concedes o sabor da eternidade.
Os pés descalços na areia…»
Eugénio de Andrade
Despedida. Mais um dia de tantas palavras por dizer, pensadas durante as coisas inadiáveis que as adiam. Tomo o tempo até à exaustão, onde os minutos previsíveis sufocam o imprevisível e adormeço num sono em que os sonhos me chamam e eu vou. Vagueio por cidades onde as casas têm um tecto de céu e as estrelas cantam as canções da nossa história. Lentamente, foge-me a alma para o longe da tua ausência, onde a noite tem a tua pele e a lua o teu encanto, onde a mais longa distância diminui o caminho entre as nossas almas. Mais um dia infinito de quieto olhar. E outro, no suave embalo do nascente, onde procuro no conforto de um azul celeste a magia do teu regresso. E sempre encontro a coragem para partir e voltar sempre a este lugar onde te espero para sempre. A manhã do teu regresso perfumou-se de um céu luminoso que mereceu o aplauso aliviado do meu coração. Os meus pés dançaram guiados pela orquestra da minha respiração ansiosa. Reconstruí o meu sorriso e conduzi o meu espaço na tua direcção. Na hora em que sustentei o teu olhar num aveludado silêncio escudado na noite percebi que dizer-te é dizer uma vida inteira. Nos teus olhos de cor de ver tudo o que existe dentro dos meus há qualquer coisa que se reacende. Uma luz que é fogo e arde por dentro. Abraço-te como quem abraça a vida e sei que sempre que a minha força não quiser acordar, por mais distantes que os teus braços estejam, virás tu sacudir-me a lágrima e segredar-me as coisas que mantêm acesa a razão da minha saudade. E permito-me desaguar em ti porque o teu regresso serve o esquecimento da dor que é não te ter. E tudo à volta se esbate e se dissimula enquanto os nossos corpos flutuam no encanto inquebrável do nosso presente. E as mãos. O contorno das bocas nas pontas dos dedos. A maravilhosa fusão da nossa pele. Com os fios de seda e do linho com que se tecem os momentos marcantes amo-te e viajo no silêncio das palavras que não precisam de ser ditas. Na perfeição dos sentidos, anestesiada pela tua ternura, adormeço na certeza de que é contigo que quero estar porque só tu me concedes o sabor da eternidade.
Wednesday, August 10, 2005
Aquele olhar ávido de crescimento registava as minhas frases com olhos esbugalhados e dedos enrolados num papel de rebuçado verde. As minhas palavras esparsas como pingas isoladas despenhavam-se abruptamente na mesa redonda daquele litígio inútil. Não tinha ainda dado conta de que aqueles olhos acompanhavam as sílabas metralhadas por mim e continuava a gesticular argumentos para o ouvinte directamente acoplado ao erro cometido. Batia engenhosamente com os meus dedos na face da mesa cinzenta que decorava pobremente aquela sala neutra, vestida de um branco imparcial, enquanto roías nervosamente a tampa da caneta. E ia sorrindo para dentro à medida que ganhava terreno na disputa das nossas vidas. Em nenhum momento foste capaz de afastar dos dentes aquela tampa repelente e levantar o olhar na minha direcção. Ouvias desaguar anteriores harmonias e actuais desavenças sempre com a mesma inconsciência mórbida. E de repente o silêncio da tua resposta quebrou-se com o som franzido de um papel de rebuçado que é remexido agitadamente. Só aí dei conta da presença daquele olhar pequenino, estendido por detrás do sofá azul do lado da janela, que se debruçava amargurado sobre as minhas palavras. Na membrana mais sensível dos seus olhos, na qual se formam as imagens das aspirações futuras, percebi que a cor dos seus sonhos se tinha apagado. Uma mágoa profunda por lhe ter sido aberto o mundo real das contradições e mentiras, dos argumentos fáceis e da hipocrisia adulta daquela forma menos dissimulada do que inocente. Intimidada pela tua mudez oportuna e por aquela lágrima pueril, desfaço a minha razão e destruo as provas da minha convicção. Arrasto a minha cadeira à distância que me permite movimentar as pernas derrotadas e dirijo-me bruscamente para a saída. Naquele trajecto uma dor aguda atravessa os nervos centrais do meu corpo e quase me impede a fuga cobarde. E saio. Fujo eternamente da inquietação cruel da minha desumanidade sem saber que a vida já não corre perfeita nos vasos sanguíneos do meu corpo.
Friday, July 29, 2005
O tempo parou. Os pés pedem para caminhar. É neste impasse descrente que, como boneca pálida sem caminho, percorre a calçada familiar daquele bairro agora triste, mais cinzento. As pessoas já não sacodem a alegria à janela nem reparam sequer no regresso daquele rosto perdido. Continua a caminhar por entre as ruas estreitas, relembrando antigas piruetas e enérgicos rodopios. Ali não há horizonte. Só sonhos pretéritos, amordaçados em cada esquina. É como se estivesse a folhear um velho álbum de fotografias onde se espalham antigos abraços, sorrisos clássicos e caras esquecidas. Em cada uma dessas imagens rasuradas pelo tempo, um pedaço de vida. Ali fora feliz. O céu ameaça lacrimejar uma chuva oblíqua e denuncia a mensagem límpida do seu olhar. Tranquila, deixa para trás aquela calçada irregular. O tempo recomeça a contagem decrescente. Os pés pedem para caminhar…
Tuesday, July 26, 2005
Eterno regresso a casa
O cabelo revolto perdido pela face, as mãos esvoaçantes, os passos largos pela areia humilhada. A baixa temperatura de um magnificente pôr-do-sol. Os pés descalços que recolhem das algas segredos enregelam secos, parados, inconscientes. Na mágoa de uma recordação, um beijo salgado, trocado ali mesmo, naquele pequeno buraco de espaço, onde foram sussurradas as palavras fé, esperança, amor. Vinham simplesmente em ondas de uma ternura regular, cuja espuma luminosa acendia as velas da alma. Hoje uma onda impaciente fere aquele corpo e repugna aquela presença. No seu olhar límpido permanece, porém, a imagem daquele beijo. Focos de luz intensos. Depois é o sol que se esconde. O mar violento que grita. Uma fotografia que se afoga no frio da noite. O cabelo revolto amacia as lágrimas que sangram. As mãos desistem de querer voar. Os passos são agora inversos. De costas para o mar aproveita o sopro de vida que vem do lado de lá da realidade. E naquele momento breve feito imenso tempo é conduzida por sentimentos imateriais, solitários mas fortalecidos. Curva-se e agarra trémula a imagem que trazia consigo. Guarda-a no lugar reservado às coisas mágicas. E se tempo houver contar-lhe-á…
O cabelo revolto perdido pela face, as mãos esvoaçantes, os passos largos pela areia humilhada. A baixa temperatura de um magnificente pôr-do-sol. Os pés descalços que recolhem das algas segredos enregelam secos, parados, inconscientes. Na mágoa de uma recordação, um beijo salgado, trocado ali mesmo, naquele pequeno buraco de espaço, onde foram sussurradas as palavras fé, esperança, amor. Vinham simplesmente em ondas de uma ternura regular, cuja espuma luminosa acendia as velas da alma. Hoje uma onda impaciente fere aquele corpo e repugna aquela presença. No seu olhar límpido permanece, porém, a imagem daquele beijo. Focos de luz intensos. Depois é o sol que se esconde. O mar violento que grita. Uma fotografia que se afoga no frio da noite. O cabelo revolto amacia as lágrimas que sangram. As mãos desistem de querer voar. Os passos são agora inversos. De costas para o mar aproveita o sopro de vida que vem do lado de lá da realidade. E naquele momento breve feito imenso tempo é conduzida por sentimentos imateriais, solitários mas fortalecidos. Curva-se e agarra trémula a imagem que trazia consigo. Guarda-a no lugar reservado às coisas mágicas. E se tempo houver contar-lhe-á…
Monday, July 25, 2005
As horas
O nervoso miudinho do tic-tac do relógio da mesa cabeceira anunciava a chegada do derradeiro, o dia em que o passado é remexido num frenesim caótico mas necessário. Simultaneamente à passagem do último minuto de sonolência, os passos renascem e reconduzem a um caminho sem retorno. Um duche para refrescar os poros e libertar a memória da selecção inócua do tempo. Um pequeno-almoço exagerado para que o estômago não ameace anunciar o estado nervoso dos órgãos do seu corpo. O grande desafio. A imagem perfeita. Atingir a perfeição. Talvez aquela camisola amarela, bastante natural. Muito provavelmente a cor peca por franca neutralidade face ao espasmo que se quer provocar no olhar concomitante. Escolhe a cor-de-rosa forte, que esconde as rugas que os anos tatuaram no seu semblante. Aperalta-se com uma energia renovada à medida que o aperfeiçoamento vai trazendo resultados positivos. Uma nova imagem, o mesmo olhar. Triste, soterrado na certeza de que é um nada que regressa e que todas as esperanças e ilusões não são mais do que vozes mudas justificadas apenas na fria solidão que, desde a despedida, a acompanhou no rasto da petrificação. Na entropia fácil dos sentidos, deixou esmorecer uma lágrima maniqueísta. Determinada, porém, pincelou as maças do rosto e redefiniu os traços do seu olhar. Fecha a porta. O sorriso. As emoções. Veste-se de uma negra dureza, ao mesmo tempo que alarma uma viva felicidade. Dez minutos depois volta a ouvir-se o tic-tac do tempo, agora em câmara lenta, como se todos os sons do Mundo se calassem e tudo à volta paralisasse no momento em que se inicia uma profunda inspiração. E é o olhar que se cruza, a frieza que morre e a nudez de sentimentos que respira. A lágrima escondida por detrás de uma maquilhagem mal conseguida reaparece forte embora vacilante, desenhando no seu rosto as letras daquele nome longínquo. Nesta denúncia involuntária de fraqueza, o coração é tingido de um sentimento abortado e ela desesperada apenas quer fugir do terreno movediço desta realidade que já não conhece. Chega a casa novamente. Despe a camisola cor-de-rosa que lhe dera outrora alento e desmancha o seu corpo na tentativa de encontrar a peça que falta, a única, a que a pode ajudar a reconstruir o seu coração.
O nervoso miudinho do tic-tac do relógio da mesa cabeceira anunciava a chegada do derradeiro, o dia em que o passado é remexido num frenesim caótico mas necessário. Simultaneamente à passagem do último minuto de sonolência, os passos renascem e reconduzem a um caminho sem retorno. Um duche para refrescar os poros e libertar a memória da selecção inócua do tempo. Um pequeno-almoço exagerado para que o estômago não ameace anunciar o estado nervoso dos órgãos do seu corpo. O grande desafio. A imagem perfeita. Atingir a perfeição. Talvez aquela camisola amarela, bastante natural. Muito provavelmente a cor peca por franca neutralidade face ao espasmo que se quer provocar no olhar concomitante. Escolhe a cor-de-rosa forte, que esconde as rugas que os anos tatuaram no seu semblante. Aperalta-se com uma energia renovada à medida que o aperfeiçoamento vai trazendo resultados positivos. Uma nova imagem, o mesmo olhar. Triste, soterrado na certeza de que é um nada que regressa e que todas as esperanças e ilusões não são mais do que vozes mudas justificadas apenas na fria solidão que, desde a despedida, a acompanhou no rasto da petrificação. Na entropia fácil dos sentidos, deixou esmorecer uma lágrima maniqueísta. Determinada, porém, pincelou as maças do rosto e redefiniu os traços do seu olhar. Fecha a porta. O sorriso. As emoções. Veste-se de uma negra dureza, ao mesmo tempo que alarma uma viva felicidade. Dez minutos depois volta a ouvir-se o tic-tac do tempo, agora em câmara lenta, como se todos os sons do Mundo se calassem e tudo à volta paralisasse no momento em que se inicia uma profunda inspiração. E é o olhar que se cruza, a frieza que morre e a nudez de sentimentos que respira. A lágrima escondida por detrás de uma maquilhagem mal conseguida reaparece forte embora vacilante, desenhando no seu rosto as letras daquele nome longínquo. Nesta denúncia involuntária de fraqueza, o coração é tingido de um sentimento abortado e ela desesperada apenas quer fugir do terreno movediço desta realidade que já não conhece. Chega a casa novamente. Despe a camisola cor-de-rosa que lhe dera outrora alento e desmancha o seu corpo na tentativa de encontrar a peça que falta, a única, a que a pode ajudar a reconstruir o seu coração.
Tuesday, July 12, 2005
Numa declaração de desassossego tento escrever o que dentro de mim corre perdido, sangrando numa angústia que, como cinzas do que julgava certo, se espalha em bocadinhos de morte nos meus dias. Não me intimida o abismo que se estende por debaixo dos meus pés e esvazia a minha força mas sinto o meu fôlego cada vez mais derrotado por este cansaço desobediente. As sirenes rápidas do passado entoam no meu cérebro e estagnam-me perante a incerteza do próximo nascente. A minha razão esconde-se envergonhada por detrás do muro inóspito da fraqueza de espírito e, numa imprevista comoção, as minhas pálpebras ameaçam denunciar o pranto que é viver neste alvoroço de ideias distintas e de nulas decisões. Só na verdade que em mim habita, construo uma história feliz, feita de sorrisos e de inabalável sentir. Nessa embriaguez de sentidos, em que há imagens insistentes que me atravessam a saudade, consigo acalmar o frenesim de deturpadas emoções e desocupar-me de tudo para guardar cada minuto que é a minha vida...
Tuesday, July 05, 2005
Há uma força qualquer que quase me rasga ao meio, que me atira para o fundo, que não me deixa emergir e expirar demoradamente. Tento perceber o que me agarra os pés e não me deixa ver a claridade da manhã que já deve ter surgido no horizonte. Olho para baixo e uma névoa embriaga a minha visão que é agora distorcida e afunilada. A razão desiste pouco a pouco de lutar contra a falta de oxigénio deste interior de um nada que amedronta os meus movimentos circulares. Há uma qualquer energia que solidifica os pingos de sentimento do meu coração e me insensibiliza de tal modo que só o negro do vazio estremece enregelado junto ao meu desalento. Há uma dor hemorrágica que não falece. Que vagarosamente serpenteia no interior do meu corpo. O dia acontece e sou obrigada a esconder o sangue que me escorre pelas vísceras com o recurso a um qualquer paliativo concedido pela necessidade imposta de não chorar jamais. E ando, conturbada pelo resignado penar dos meus dias. E não choro porque mais vale aparentar a força do que transparecer uma fraqueza que sempre nos trai porque é verdade. E arrasto o meu olhar por falsos sorrisos e abraços imperfeitos. Dou o nada que é tudo o que tenho para dar e espero que essa força desista de me fazer fraca e me deixe encarar o meu próprio insucesso, sozinha, na sombra vacilante do meu medo. Espero que essa dor, assassina dos sonhos que desenho timidamente em folhas brancas de papel, cesse a sua vocação aniquiladora da minha existência e que, um dia, me deixe emergir e respirar os átomos da liberdade…
Thursday, June 30, 2005
Num rodopio de um choro convulso e aflito disseste que ias suspender a tua existência. E no compasso seguinte do silêncio pontiagudo que se estreitou entre nós, foste distorcendo palavras de uma mágoa qualquer. Imaginei o teu olhar vazio e triste, o teu cabelo em cascata a cair-te pelos olhos negros, o desalento nos teus passos e a tua mão repetidamente nervosa a cair-te no colo em cada soluçar reticente. Desembaciei a distância na tentativa de a encurtar e esperei tranquila pela tua desilusão. Despediste-te depois num silente abraço e, sem dares por isso, abandonaste-me num súbito naufrágio de mim. De repente a minha manhã vestiu-se de um breu inóspito, próprio de uma noite sem lua e fiquei perdida no labirinto do meu coração. Compreendes o que sinto cada vez que uma lágrima te dilacera a alma? Compreendes o que sinto quando desistes de ter coragem e deixas que a sublime escuridão te extasie os sentidos? Vive agora em mim esta angustiante vontade de voar para o teu espaço e te conferir a esperança que hoje te desampara por um qualquer motivo que o destino ditou. Queria ser a brisa na palma da tua mão, para que não sentisses necessidade de cerrar os punhos numa revolta que não é caminho. Queria pegar-te ao colo, como tantas vezes soube fazer, e dançar contigo neste rodopio distorcido da vida. Queria roubar-te um sorriso para que com ele conseguisse apagar esta culpa ancestral que guardo ainda em mim. No entanto, continuo suspensa perante a inevitabilidade da tua lágrima e perante a impotência de te agasalhar o coração numa redoma de amor. A minha noite antecipada congela-me os músculos e questiona cruelmente esta separação que agora não podia ser verdade. Envolvo o teu olhar no meu pensamento e peço-te em lágrimas que me perdoes.
Thursday, June 23, 2005
Cor da alma
Hoje em mim vive um cansaço desiludido. Por pensar demasiado, por sonhar indisciplinadamente, por não dominar ainda a cor da minha alma. Escondo o meu rosto entre as mãos e deixo o sabor da brisa pintar-me lágrimas de vento no cabelo. Estendo as feridas abertas pelo tempo e exponho os vírus intrépidos que corroem a minha vontade. Porque hoje tenho uma vontade diferente. Apetece-me despir a pele e perseguir o mar. E auscultar o celeste paraíso. Quero mais do que tudo conhecer a cor da minha alma porque nada mais importa. E nada importa mesmo se a soubermos escutar mesmo na tortura sufocante das grades físicas da existência. Se a abraçarmos como loucos perturbados, sem destino. Tento tocar essa loucura cálida e desenho-a com suaves sílabas numa folha de papel. Leio-a. Repetidamente leio em voz alta e tento descobrir-lhe os contornos mais precisos e uma qualquer cor. Nada. Apenas uma titânica transparência e um magno silêncio, que desprezam esta mania que tenho de pensar demasiado em tudo quanto respira a meu lado, ao invés de pretender sentir apenas esse pulsar que pode ser também tranquilo. Esse manancial de delicada luz também desconhece o sonhar indiscplinado e diletante que carrego comigo e que transtorna o meu tempo. E numa profundidade quase sanguínea, a alma ignora qualquer rasgo de cor que possa adulterar os muros da fortaleza sobre os quais se ergue. Permaneço de olhos fechados e tento ouvir o seu prudente murmúrio. E o que escuto é este silêncio incolor que ilegitima o cansaço que em mim hoje vive.
Hoje em mim vive um cansaço desiludido. Por pensar demasiado, por sonhar indisciplinadamente, por não dominar ainda a cor da minha alma. Escondo o meu rosto entre as mãos e deixo o sabor da brisa pintar-me lágrimas de vento no cabelo. Estendo as feridas abertas pelo tempo e exponho os vírus intrépidos que corroem a minha vontade. Porque hoje tenho uma vontade diferente. Apetece-me despir a pele e perseguir o mar. E auscultar o celeste paraíso. Quero mais do que tudo conhecer a cor da minha alma porque nada mais importa. E nada importa mesmo se a soubermos escutar mesmo na tortura sufocante das grades físicas da existência. Se a abraçarmos como loucos perturbados, sem destino. Tento tocar essa loucura cálida e desenho-a com suaves sílabas numa folha de papel. Leio-a. Repetidamente leio em voz alta e tento descobrir-lhe os contornos mais precisos e uma qualquer cor. Nada. Apenas uma titânica transparência e um magno silêncio, que desprezam esta mania que tenho de pensar demasiado em tudo quanto respira a meu lado, ao invés de pretender sentir apenas esse pulsar que pode ser também tranquilo. Esse manancial de delicada luz também desconhece o sonhar indiscplinado e diletante que carrego comigo e que transtorna o meu tempo. E numa profundidade quase sanguínea, a alma ignora qualquer rasgo de cor que possa adulterar os muros da fortaleza sobre os quais se ergue. Permaneço de olhos fechados e tento ouvir o seu prudente murmúrio. E o que escuto é este silêncio incolor que ilegitima o cansaço que em mim hoje vive.
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