Friday, July 13, 2007

Quero lá estar...

Eu quero estar quando a força te abandonar. Quero arrancar o pesadelo do teu olhar ausente, num abraço apertado e ficar contigo para o sempre que está por perto quando o início do caminho se anuncia.
Por isso fica.
Bem sei que o tempo se desvanece enquanto as palavras encontram os limites da sua finitude e que o sorriso também pode morrer.
Mas fica só hoje.
Preciso de estar quando o fim nos desligar do passado, que se eternizará em memórias do presente e do futuro, porque me assusta essa quantidade absurda de fragilidades que acumulas no peito e que te dificultam o respirar. É só por isso que preciso que queiras que eu fique.
Fica só hoje. É que hoje é o último dia...

Tuesday, May 08, 2007

A desilusão é invisível aos olhos de quem a não vive, mas é de tal maneira forte por dentro que se vai instalando em todo o ambiente decorativo, em silêncios insignificantes, é de tal maneira intensa que quando se dá por ela não há nada que se possa fazer para a não viver. A desilusão, palavra que é decerto pequena para significar a tamanha dor que inflige no que é real, apaga o sentido das coisas, desmancha o coração em pedaços e custa a abandonar a alma onde assentou a poeira do desgosto. É pesarosa, insistente, tortuosa nos caminhos por onde se evidencia. Insistente. Tortuosa. Torturante. A desilusão. Ela corrói os tendões que ligam o coração à vida, elimina qualquer sorriso que perdure e transforma o passado em único reduto de existência possível. O estado vegetativo de um corpo desiludido é uma quase morte extensível ao futuro que não será.

Friday, May 04, 2007

Ainda ando à tua procura...

Atende. Por favor, atende. Não denuncies a distância com a mensagem automatizada escrita pela tua voz formal. Não te escondas por detrás desse vidro transparente que finge abafar o teu choro calado. Atende e deixa-me encontrar-te. Atende. Ando nervosa, apagada da realidade absurda de tão frenética, palpita-me o coração que está longe, contigo, nesse lugar ermo de cor, no cimo dessa ponte frágil sem outra margem, tremem-me por dentro os vasos sanguíneos que arrefecem o meu corpo. Deixo mensagem na tua caixa de correio e volto a marcar o teu número....

Nunca chegaste a responder.

O meu coração parou no momento em que deixaste de respirar.

Estou gelada. O sangue não me corre nas veias. E a minha alma ainda anda à tua procura.

Saturday, March 17, 2007

Pareces triste

Assim, recolhida em torno de ti, abraçada ao vazio que se acumula no espaço livre das ausências em ti encostadas. Assim, com lágrimas de despedidas recentes no canto do teu coração, agora desprotegido, do lado de fora do peito. Pareces triste e eu não sei como alcançar a sombra dos teus fantasmas e amarrá-los ao tempo passado a que pertencem. Mas não estou. Dizes-me sem nunca levantar o olhar do chão, anunciando, nas palavras que ficaram retidas na afonia dos sentidos, que quase desistes. Sento-me, calada, a teu lado mesmo que o não queiras, porque a minha vida também és tu. E a teu lado, a minha mão aberta a agarrar o teu coração…

Wednesday, March 07, 2007

Fui

Voltei a olhar-te. Limpei o pó da tua fotografia presa no meu corpo e rasguei o meu coração com a tua memória. Por segundos inconsciente, decidi voltar a esperar-te como se o tempo pudesse congelar a mudança. Redescobri-te em diálogo ameno com outros, vi-te ao longe e quis acreditar que eras menos distância. Ainda pensei que o tempo nos pudesse congelar naquele ponto em que eras mais eu do que tu. Mas não. Eras sombra e luz só por aqueles instantes face ao rodopio de lembranças despertas pelas partículas de pó sacudidas do passado. Foste. E não há amanhã contigo.

Monday, February 19, 2007

Tu

Ensinas-me a ser. A respirar. A levantar voo mesmo com asas feridas e pesos de dores antigas nas minhas costas. E eu levanto-me e nem te agradeço o oxigénio que me permites respirar em mundo de negro monóxido que me fere os pulmões. Não é por mera indiferença, nem sequer por ingratidão egoísta, porque jamais soube vestir-me de estados tão frios de alma. Simplesmente, não consigo olhar-te. Nem mesmo quando me deito a teu lado na penumbra da nossa história, escrita a dois soluços desencontrados do tempo. Sinto-te apenas e não ouso querer mais do que isso. Aprendo-te assim, neste silêncio que une as arestas do nosso mundo quadrilátero, sem questionar a tua ausência quando não estás e sem te abraçar na presença difícil dos momentos. Sei-te apenas. Basta isso para conseguir ser melhor, para fortalecer esta minha fraqueza que se desfaz em lágrimas e ergue medos em meu redor. E ao saber-te não preciso de mais nada, nem de outros sorrisos, nem de outros abraços, nem de conquistas fáceis que invertem o sentido da essencialidade da verdade.

Thursday, January 11, 2007

Solidão na liberdade

Fui adormecendo embalada pelo ritmo cardíaco do teu coração e das tuas palavras incessantes. Mesmo envolta numa sonolência a que não conseguia resistir, as tuas últimas palavras ainda faziam eco no seio do meu entendimento interior sobre o seu significado. Senti uma vontade de chorar iminente porque o afastamento do amor por ti defendido funcionou como lâmina aterrada no meu coração e fez-me sentir uma dor imensa a invadir-me todos os recantos sensíveis do meu ser. Por um lado, acho que chegava a admirar a tua força, o teu desprendimento, a tua coragem de ser livre, mas, noutras alturas, sabia-te longe de mim, porque, conhecendo-me, experimentava uma forte incapacidade de te seguir nesse caminho de liberdade. Não senti, porém, rancor. No momento imediato antes de adormecer descobri apenas que não era amor o que nos unia. Era uma necessidade biológica, física, que ousava ser extenuante apenas para não deixar espaço livre para questionarmos o nada que nos envolvia como manta fina de ilusão perdida. E a solidão de que falavas seria, a partir daquele momento, a tábua de salvação do meu mundo interior, que se agitava em convulsões de dúvidas permanentes sobre se era ou não derrota aquilo que experimentava. A solidão, condição necessária para se ser livre, como me disseste, passaria a ser a minha única companhia na incessante procura da minha verdade pessoal

Thursday, November 09, 2006

«Escrever é soprar vida em objectos mortos.»
António Lobo Antunes

Tuesday, November 07, 2006

Falta-me...

O ar. De todas as vezes que me sinto escorregar na incerteza do real, vestimenta de tantos sonhos. Entro em pânico. Sempre que sinto esta incapacidade de olhar em frente e este sentimento tentador que tem sabor a desistência. Fecho os olhos. Inspiro e expiro o nervosismo que pulsa cá dentro. E se voltasse para trás, agora que ninguém daria por isso? Fraqueza, som que vem de dentro, de um qualquer canto recôndito da alma adormecida. Fraqueza. É precisamente o som que não queria admitir como melodia constante nos meus dias. E se fosse em frente, devagarinho, sem dizer a ninguém? Avançaria passo a passo, evitando os caminhos ruidosos da publicidade involuntária, e tentaria, chegada ao futuro, resolver estes destinos que não se determinam. Medo, tentáculos que enlaçam os meus movimentos e me impedem de avançar. Medo. De que todas as coisas que sempre alimentei com uma crença quase inabalável acabem simplesmente esquecidas e derrotadas. Falta-me o ar. E sinto-me escorregar na incerteza do que construo. Entro em pânico. Fecho os olhos. Fraqueza. Medo. É possível voltar atrás sem que me persiga este sentimento de desistência cobarde que hoje me assola o pensar?

Thursday, October 19, 2006

"Ao mergulhar, o mar entrou-lhe de roldão no pensamento e deslocou-lhe os sentimentos para uma zona de tal modo abstracta e afastada de qualquer tipo de emoção, que por momentos deu duas ou três braçadas num plano de si mesmo a que jamais tivera acesso e que, por muito pouco democrático desígnio da natureza, lhe pareceu que até então estivera reservado a deus. Fruto de alguns segundos, que cada poro do seu corpo registou de maneira diferente, acrescentando-lhe ao que acima se descreve uma sensação de elasticidade cronológica de que se lhe afiguraram pouco dignos os seus órgãos, esta experiência foi interrompida por um regresso à superfície que lhe devolveu a presença do areal e dos rochedos a que naquele instante a aragem insuflava uma realidade disjuntiva."
Luís Miguel Nava in O CÉU SOB AS ENTRANHAS (1989)

É como me sinto hoje, inundada de mar…

Wednesday, October 04, 2006

O Passado Sempre Presente

Com uma monumentalidade esmagadora que se prolonga no infinito do céu, ergue-se a cúpula, sólida e majestosa, que mais parece proferir uma bênção a todos os homens e mulheres que por ali meditam, num silêncio arrebatador.
A fachada é coroada por um frontão triangular abraçado por duas torres sineiras com relógios, onde se salpicam ordenamente estátuas monumentais e figurações relevadas alusivas ao mistério do Sagrado Coração de Jesus.
Não me detive nos passos, agora comandados pelo espírito, esqueci-me das horas que atrapalham o tempo dos homens e deixei-me mergulhar naquele espaço onde matéria e espírito se misturam harmoniosamente.
A nobreza dos materiais que ornamentam o silêncio daquele lugar dota o espaço de uma sobriedade quase perfeita. Ao fundo, a tela A Ceia, de Pompeo Battoni. No transepto direito, o túmulo estilo império de D. Maria I.
Impressionante como os pequenos detalhes invisíveis ao olhar superficial saltam agora à vista como sinais de devoção profunda. Já lá tinha entrado umas poucas vezes mas foi a primeira vez que interiorizei verdadeiramente a beleza firme e séria da Basílica da Estrela.
Invadindo o silêncio do momento, avança sobre mim uma senhora delicada com uma brochura da Basílica na mão questionando-me sobre a vontade de participar na visita guiada que se iniciaria dentro de alguns momentos. Agradeci o folheto com moderado interesse, com um movimento ainda embalsamado pelo relaxamento de espírito que experimentava, e recusei distraidamente a participação na visita. A senhora afastou-se com um sorriso e, enquanto a mesma se dirigia já a um casal que se preparava para tirar uma fotografia à nave central, aproveitei para me sentar uns minutos nos assentos de madeira enfileirados no corredor lateral direito. O folheto apresentava na parte de cima uma fotografia admirável da fachada principal da Basílica, que é densificada pela informação histórica escrita mais abaixo. Aí se diz que a Basílica nasceu da devoção da princesa herdeira D. Maria, futura rainha D. Maria I, que fez um voto no dia do seu casamento de que, no caso de ter um filho varão, que veio a nascer em 1761, procederia à construção de um convento para as religiosas Carmelitas Descalças.
Envolta num silêncio vertiginoso e irrecusável, demorei-me a sentir toda a história presa nas pedras erguidas pela força daquela devoção originária, quase embrenhada nos abismos da vida espiritual, até ao momento em que a hora presente me obrigou a retornar aos minutos apressados que só atrapalham o tempo dos homens...

Tuesday, September 05, 2006

Disse-te adeus e morri

Sempre. Entendimentos desencontrados do real que cerca a nossa visão. Da diferença, antes invisível, brota pequenina a mágoa constante que se aperfeiçoa com o passar do tempo e engrandece a dor com que se alimenta. Desapareces-me intermitente do horizonte do meu globo ocular, enquanto pisco insistente os olhos na esperança que a névoa que te acolhe se desvaneça no ar. Mas não, não te alcanço. Tenho comigo as palavras presentes que significam o contrário do significado dos teus passos. Elas não são mais verdade no meu coração. São meras palavras, pequenas demais, insuficientes para me abraçar na solidão que me ofereces. Olho para o corredor que se afunila nas minhas costas. Pensei que voltasses. Esta frase dita assim, timidamente, soa trémula, vibra no vazio e denuncia a tristeza pintada nos quadros que decoram o espaço. Engraçado. Antes não compreendia aqueles desenhos abstractos, despejados sem sentido naquelas telas. Hoje sinto que aqueles traços escondem um desencanto quase mágico. Mais ou menos o que hoje descubro. A magia revoltada por um desencanto viril e cruel. Baixo o rosto para apanhar uma lágrima que quase me escapa e tento com ela apagar a contradição sanguínea que as tuas palavras encerram. Quero deixar-te ir, agora que foste. E digo-te adeus.

Wednesday, August 23, 2006

Nunca te perdi

Hoje, doem-me a saudade e a morte lenta dos sentidos que a ausência traz.
Senti-te flutuar junto do meu espaço momentos antes de acordar. Sabia que se abrisse os meus olhos a vibração do teu sorriso se esfumaria na pressa do tempo real. Por isso, mantive-me estática, com os olhos afogados na almofada. Só a sentir-te. Sorrias pacientemente, com olhos doces de saudade, enquanto me afagavas o cabelo com a paixão de outrora. Sopraste-me um beijo de despedida ao ouvido, com palavras de vida. E deixaste-me inerte, ainda de olhos cerrados, com um arrepio permanente que ainda percorre todos os nervos do meu corpo e me impede de te deixar de pensar.
Trago-te em mim em cada lágrima que cai vagarosa na tua voz escrita nas linhas do passado, sinto-te no silêncio que tanto quero agarrar em mim, és a luz que me desperta para a vida e por trás dos meus olhos é a tua imagem que me alimenta a força de ser forte.
Hoje revisitei todos os teus lugares, os sorrisos, os abraços, toda a ternura e cumplicidade construídas nos laços que a vida nos dá. As cores da tua presença preenchem a dor que hoje é profunda e apaziguam este choro ferido de te saber longe.
Amanhã, mesmo antes de acordar, vou embrulhar-me quieta nos lençóis, à tua espera. E depois. E em todos os dias da minha vida…

Thursday, August 17, 2006

Não consigo sentir a tua falta.
És imagem morta nos registos da minha memória e mesmo assim, desfalecida, cansas-me. Só a ideia da tua presença ou o som ficcionado da tua voz fatigam-me.
Não queria que fosse assim. Mas no meu mundo construído de verdade não cabem as chantagens tenebrosas que ainda tens coragem de insinuar, nem os teus delírios insanos, angústias dramáticas que alimentas com lágrimas e sangue alheio.
Conseguisses tu sentir a tranquilidade daquilo que é autêntico e perceberias que aquilo que sentes em relação aos outros mais não é do que uma pobre projecção do vazio que em ti vive.
Sujas as crenças dos que desiludes, sugas tudo aquilo que é cor e verdade, disfarças sorrisos e lágrimas, esfaqueias o coração de quem por ti passa e esperas sair impune apenas com uma trémula aparição em realidades que não te pertencem. Desta vez, porém, apesar de a tua loucura ser credível, não vai ser assim. Não respondo com a frieza, porque não sei sê-lo, nem te dou o rancor, porque ele em mim não habita. Só te posso oferecer ajuda, ainda que no silêncio da minha inacção, mesmo que já a tenhas rejeitado, no único minuto em que ousei defender a tua existência.
Sabes? A resposta é o amor. O amor. E só o deve jurar quem o sabe cumprir.

Wednesday, August 16, 2006

Só existe aquele momento...

"Existe sempre no mundo uma pessoa que espera a outra, seja no meio de um deserto ou no meio das grandes cidades. E quando essas pessoas se cruzam e os seus olhos se encontram, todo o passado e todo o futuro perdem qualquer importância, e só existe aquele momento e aquela certeza incrível de que todas as coisas debaixo do Sol foram escritas pela mesma Mão. A Mão que desperta o Amor, e que fez uma alma gémea para cada pessoa, que trabalha, descansa e busca tesouros debaixo do Sol. Porque sem isto não haveria qualquer sentido para os sonhos da raça humana."

O Alquimista

Wednesday, August 09, 2006

“Eu nunca durmo, com a ferida do meu próprio sono”
Herberto Helder

Não sei pedir ajuda. Páginas e páginas em branco, silêncios que se instalam, portas que fecho sem olhar para trás. Que raiva que sinto deste embotamento, desta incapacidade total de ser directa no precisar. Não me quero assim. Quero explodir por dentro e queria que isso fosse redentor. E queria aprender a redenção e fixá-la para sempre...

Tuesday, July 11, 2006

Estou de acordo. A distância aproxima as pessoas quando elas ainda têm algo a dar umas às outras. Muitas vezes o questionar obsessivo dos caminhos que a vida nos apresenta esconde o medo fundo e solitário. Impede o voo para além dos limites do tempo e do espaço. Como forma de ceder a esse medo interrogativo, optaste por deixar de questionar e deixaste-te ir ao sabor da paixão alucinada, abraçaste outros braços, percebeste que o ser triste não impede o sorriso. Iludiste o teu coração com uma plenitude de sentimentos, como se o amor se pudesse roubar aos poucos, aqui e ali, num e noutro olhar. Desististe. Mas o que é verdade é mais forte do que todas as mentiras que te fazem coragem. O que é verdade volta sempre. Ao som de uma música silenciosa que outrora foi palco de aplausos apaixonados, à boleia de um perfume sedutor, nas letras que se vão escrevendo para iludir a saudade. E é curta, é sempre curta, a distância que une, pelo sentimento, duas almas perdidas no espaço físico do mundo. Por isso, não atormentes mais o teu coração ferido com mentiras de intensa paixão e permite-te voar para junto da tua verdade. Estou de acordo. Corre. Também não hesitarei, se algum dia a coragem for minha.

Thursday, May 25, 2006

Adeus

De olhar triste e profundo, caminhas sem caminho traçado, num trapézio de infinitas sensações, por entre ruas escuras e labirintos de morte. Teus olhos são máscaras de sangue e de lama, revestem-se de uma dureza inigualável e escondem lágrimas de fraqueza e solidão. Sorris. No entanto, sorris. Talvez na tentativa de o fazeres real em ti. Talvez por não saberes que chorar é a melhor forma de limpar a alma da amargura alojada por frustrações repetidas e por sonhos que jamais vestirão a tez do mundo real. Talvez por não saberes que um sorriso vazio te denuncia mais facilmente do que uma lágrima cheia de ti. Caminhas na minha direcção, com mãos descontraídas nos bolsos do casaco, andar infantil e propositadamente arrastado. Interpreto-te à medida que a tua sombra se solidifica no campo da minha visão. E vejo um menino que se julga homem, naturalmente selvagem, sem rumo ou direcção, porque a vida é madrasta e o coração solteiro. Oiço o teu grito ferido, o teu pedido de ajuda fortíssimo, mas, simultaneamente, vejo os traços da tua desistência forçada porque não queres saber ser diferente. Alcanças o meu espaço. Olá. Dizes-me em tom forte, que denuncia o teu total constrangimento. Passas a mão nervosa pelo cabelo negro. Respondes-me sem me dar tempo para te perguntar. Não sei o que faço aqui, mas é aqui que quero continuar. Por isso, é melhor saíres. É o meu território. É a minha vida. É o meu momento. Este não é sítio para ti. Metralhas-me estas frases com olhar afastado de mim e empurras a minha presença para longe. Queres-me ausente. Só assim consegues justificar o fardo da dor. Com a ausência dos outros que teimosamente afastas de ti. Continuo estática sem saber o que dizer. Mas nem por isso me abandono ao teu querer irresponsável de tão corrompido. Não preciso de sair. És tu quem me abandona naquela ruela escura, com imagens de morte pintadas nas fachadas dos prédios irreconhecíveis de tão degradados. Vejo-te desaparecer na penumbra da solidão que escolhes para os teus passos e quase acredito que a tua liberdade é ilimitada. Quase acredito que podes ser feliz…

Thursday, April 20, 2006

Sem pressa de passar

Como se as não tivesse sonhado, dou por mim a negar todas as imagens perdidas nos meus sonhos, a rasurá-las com a violência que só a mágoa profunda permite e, pela primeira vez, sem medo de me perder no tempo sem destino. As lágrimas acumulam-se no interior sanguíneo do meu coração e dirigem-se ao passado onde és figura feliz mas já distante. Ousei questionar porque não me comandava mais o sabor do vento, porque não me dava o céu as asas do mundo e porque é que é profundamente triste o sorriso da subordinação acrítica aos passos alheios. Não ouso mais. As respostas são o tempo. Tempo que corre devagar sempre que é para doer. Com o mesmo tempo, nego-me e a ti por medo, por cobardia, por profunda dor, que se espalha nas entranhas poeirentas do passado, por não saber mais se me quero. Ou a ti. Ou a nós. E hoje as horas passam devagar e inebriam o dia com tons escuros de uma noite que nunca deixou de o ser. E hoje os minutos carregam o meu pesado olhar, como se caminhassem lentos para a morte dos sentidos. E só hoje o tempo me suspira a culpa que não queria carregar, a culpa de ter tido oportunidade de te conhecer diferente… se te não tivesse sonhado demais. Desligo os sentidos do que sou e levito até ao outro lado da vida, na esperança infantil de que na outra margem esteja a solução para desamarrar a minha alma dos nós e laços que o mundo dá e abandono-me, pela primeira vez, sem medo de me perder no tempo sem destino…

Thursday, March 16, 2006

«O ódio é a cólera dos fracos.»
Daudet, Alphonse


Há qualquer vazio que nos mata na distância que sobra do nosso espaço, uma lágrima pequena que corre perdida por entre nossos dedos separados, olhares tímidos de vergonha. Há qualquer força que nos afasta e eu sei porquê. O abismo presente impõe-se entre todos aqueles cujas almas estão viradas do avesso, em alvoroço para um final, cegas para um destino, que querem a todo o custo conquistar. O apartar dos caminhos dá-se sempre que dois são e serão sempre dois e nunca simbiose perfeita do querer, do querer o mesmo ao mesmo tempo. O tropeço dos passos vinga sempre quando a melodia do presente não está em sintonia com os sons trazidos pelo futuro. O fim chega sempre quando um muro se sobrepõe a qualquer ímpeto de força para continuar, a qualquer crença na harmonia, à pureza do sentir. E hoje percebi o fim que me condiciona o caminhar e me leva para longe, onde tudo é mais verdade e menos dor. E hoje vejo-te assim, sombra de memória, sinal distante da minha pele, devorador de outras almas que não a minha, demónio perdido entre fantasmas ardentes de inferno. Prometo que não vou parar na evidência mórbida do mal que em ti existe. Prometo ir sempre mais longe, perto daquilo que sacia a minha alma, que são os ventos suaves dos sorrisos, a autenticidade do choro e verdade do amor. Jamais seguirei, por isso, esse exemplo de ser repositório de dor alheia, de frustrações pequenas, de ódios crescentes e mesquinho pensar. Volto a casa com a sensação mista de desilusão e felicidade extrema. As mãos tremem quando rodo a maçaneta da porta da minha vida. É por ela que clamo num pranto suave. É a ela que regresso. Contigo. Sempre contigo. Até ao fim.