Friday, April 18, 2008

Para a M.o P. e o I.

Ternura verdadeira e envolvente num espaço que volta a ser o meu, o passado que revive no presente sem deixar de ser futuro, a verdade de sempre que me justifica o pensar e o ser. É assim o regresso. É assim que me sinto. Em casa. Com o amor que lhe é característico, com o tudo que se entranha na pele e nos demais sentidos, o tudo que me aquece o espírito e que me permite o sono sereno perante os sobressaltos do incerto que há-de vir. Permaneço horas neste silêncio, colada aos vidros da janela do quarto, a observar os sons da minha infância e a imaginar como será daqui por diante, com a vida às costas a suspirar em saudade...

Friday, October 05, 2007

As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir…


Estive para te escrever mas não consegui encher as palavras com a vida de tantos anos passados… As folhas rasgadas a meio de memórias revisitadas ainda se encontram espalhadas pela casa e em cada recanto encontro uma palavra perdida que és tu. Simplicidade. Essência. Encontro-te na verdade, na dor e ainda mais na saudade. Só consigo apreender-te nesta história desconexa, feita de textos escondidos e de lugares perdidos, consumidos pelo constante regresso à casa de partida das nossas vidas.
Hoje voltei a tentar escrever-te mas parei no primeiro ponto final que fui capaz de desenhar. E não sei continuar-te…

A chuva ouviu e calou
meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade.

Friday, August 10, 2007

Solidão I

Passa uma morena sorridente, jovem de idade, traços delgados mas definidos, rosto diáfano, esguio mas condensado, de olhos esbugalhados para o oxigénio do dia, azuis quais pedras gélidas, mas doces. Calmos. Olha para mim como se me visse e num sorriso de dó pergunta-me se não quero ajuda para atravessar a estrada. Ajuda para quê, mal fique verde podemos atravessar e apesar de levar mais tempo a comandar estes trapos de pernas, ninguém se importa mesmo, pensei. Antes que pudesse tartamudear a minha cólera, a mão de pele sadia e fresca atestou as minhas rugas e feridas e ajudou a transportar-me para o outro lado. Enquanto caminhava, de cabeça baixa, tentando delinear os traços aprazíveis daquela rapariga em breves esgares, descobri que já não sabia a cor do carinho e não conseguia recebê-lo em mim. A aragem fazia dançar os seus cabelos compridos, com a transparência dos vinte, e embelezava ainda mais as linhas definidas do seu rosto cheio de um tudo que não me lembro de alguma vez ter possuído.
Está bem aqui, não precisa de nada, pergunta-me com uma doçura intérprete de alma sonhadora. Se preciso de alguma coisa, não sei, nunca ninguém me perguntou. Acho que não. E não agradeço, não sei fazê-lo e engulo a minha angústia por ser forçada a reconhecer a sobrevivência de corações no meio desta selva humana e isso ainda me transtorna mais.
Afinal há pessoas que não precisam de se enfiar no esgoto da inexistência nem render-se ao despotismo social para conseguirem afirmar a bondade gratuita do coração.

Wednesday, August 01, 2007

É bom reviver-te em mim mesmo na solidão da noite mais profunda, em que colecciono textos de palavras pequenas que testemunham aquilo que é mais instantâneo na saudade: a lágrima sem território, que desenha no rosto traços visíveis da tua ausência permanente.
Sabias disso? Que este segredo de te manter vivo é a única força que me impõe o acordar em tantos dias seguidos, que o procurar-te nas cores dos olhares das outras pessoas é o único caminho que os meus pés conseguem desbravar?
Não consigo aprender a fórmula mágica de te esquecer. Aquela música ainda abala o meu ritmo cardíaco, a imagem da tua possível chegada ainda alarma o meu silêncio e aquela verdade que só as palavras da tua boca conseguem proferir ainda me apoquenta o espírito.

E a tua ausência ainda me dói…

Friday, July 27, 2007

Pedaços de ti

Ela diz que ainda ontem sonhou com essa leveza, a que sustenta o teu sorriso cativante, mas não te encontrou. Desvanecem-lhe os traços do teu corpo por entre sonhos confusos feitos de presenças e ausências descontroladas em tempos e espaços indecifráveis.
Ela continua a dizer que é inútil a esperança e que o sonho mais não é do que soma forçada de pedaços de outras vidas que as mãos nunca tiveram coragem de agarrar e de momentos irreais cuja construção só serve para abalar a comodidade da solidão.
Mesmo descrente, parece que te continua a sonhar à noite e que é feliz nessa realidade de personagens e de histórias construídas fora do mundo das pessoas de verdade. Nesse imaginário protegido apareces vagamente descrito como luz intensa numa verdade quase infantil, as tuas mãos são fielmente reproduzidas em imagens de infindável doçura e o esboço do teu olhar é traduzido por palavras apaixonantes onduladas pela química dos sentidos.
Ontem, ela confidenciou-me que te quer rasgar da memória e que não volta a visitar-te. Mas à noite, tu és mais forte do que a resolução imediata de te esquecer e sei que ela voltará a encontrar no sonho que protagonizas a felicidade que existe na magia do desconhecido.

Wednesday, July 25, 2007

Efémero eterno

Quero tanto que a recordação de ti se eternize nas imagens que em mim guardo que quase tenho medo de continuar a viver.
Há momentos de uma perfeição poética, quase tão exagerada como a estrutura da ilusão, que nos sufocam o respirar e nos transportam para um estádio julgado inatingível de felicidade. Acrescentar-lhes novos dias, sons posteriores, ou influências externas, implica estrangular, com a repetição aperfeiçoada do recordar, o que o passado nos permitiu viver e desfocar a imagem do que já foi real.
Quero tanto recordar-te indefinidamente que quase sinto a coragem para congelar o meu coração e a parte do cérebro que imprime as fotografias do teu rosto e penso se não seria solução viável parar o decurso do meu próprio tempo, doá-lo ao nós que nunca vai existir e permitir que tu sejas a eternidade possível.
Hoje invade-me este medo de pisar o terreno estranho dos dias que ainda hão-de vir mas, enquanto a cobardia desse sentimento me impedir o abandono deste palco, vou continuar a legendar o passado com as imagens que de ti os meus olhos souberam construir, procurando agarrar este prazer que é o de conseguir eternizar a efemeridade.

Friday, July 13, 2007

Quero lá estar...

Eu quero estar quando a força te abandonar. Quero arrancar o pesadelo do teu olhar ausente, num abraço apertado e ficar contigo para o sempre que está por perto quando o início do caminho se anuncia.
Por isso fica.
Bem sei que o tempo se desvanece enquanto as palavras encontram os limites da sua finitude e que o sorriso também pode morrer.
Mas fica só hoje.
Preciso de estar quando o fim nos desligar do passado, que se eternizará em memórias do presente e do futuro, porque me assusta essa quantidade absurda de fragilidades que acumulas no peito e que te dificultam o respirar. É só por isso que preciso que queiras que eu fique.
Fica só hoje. É que hoje é o último dia...

Tuesday, May 08, 2007

A desilusão é invisível aos olhos de quem a não vive, mas é de tal maneira forte por dentro que se vai instalando em todo o ambiente decorativo, em silêncios insignificantes, é de tal maneira intensa que quando se dá por ela não há nada que se possa fazer para a não viver. A desilusão, palavra que é decerto pequena para significar a tamanha dor que inflige no que é real, apaga o sentido das coisas, desmancha o coração em pedaços e custa a abandonar a alma onde assentou a poeira do desgosto. É pesarosa, insistente, tortuosa nos caminhos por onde se evidencia. Insistente. Tortuosa. Torturante. A desilusão. Ela corrói os tendões que ligam o coração à vida, elimina qualquer sorriso que perdure e transforma o passado em único reduto de existência possível. O estado vegetativo de um corpo desiludido é uma quase morte extensível ao futuro que não será.

Friday, May 04, 2007

Ainda ando à tua procura...

Atende. Por favor, atende. Não denuncies a distância com a mensagem automatizada escrita pela tua voz formal. Não te escondas por detrás desse vidro transparente que finge abafar o teu choro calado. Atende e deixa-me encontrar-te. Atende. Ando nervosa, apagada da realidade absurda de tão frenética, palpita-me o coração que está longe, contigo, nesse lugar ermo de cor, no cimo dessa ponte frágil sem outra margem, tremem-me por dentro os vasos sanguíneos que arrefecem o meu corpo. Deixo mensagem na tua caixa de correio e volto a marcar o teu número....

Nunca chegaste a responder.

O meu coração parou no momento em que deixaste de respirar.

Estou gelada. O sangue não me corre nas veias. E a minha alma ainda anda à tua procura.

Saturday, March 17, 2007

Pareces triste

Assim, recolhida em torno de ti, abraçada ao vazio que se acumula no espaço livre das ausências em ti encostadas. Assim, com lágrimas de despedidas recentes no canto do teu coração, agora desprotegido, do lado de fora do peito. Pareces triste e eu não sei como alcançar a sombra dos teus fantasmas e amarrá-los ao tempo passado a que pertencem. Mas não estou. Dizes-me sem nunca levantar o olhar do chão, anunciando, nas palavras que ficaram retidas na afonia dos sentidos, que quase desistes. Sento-me, calada, a teu lado mesmo que o não queiras, porque a minha vida também és tu. E a teu lado, a minha mão aberta a agarrar o teu coração…

Wednesday, March 07, 2007

Fui

Voltei a olhar-te. Limpei o pó da tua fotografia presa no meu corpo e rasguei o meu coração com a tua memória. Por segundos inconsciente, decidi voltar a esperar-te como se o tempo pudesse congelar a mudança. Redescobri-te em diálogo ameno com outros, vi-te ao longe e quis acreditar que eras menos distância. Ainda pensei que o tempo nos pudesse congelar naquele ponto em que eras mais eu do que tu. Mas não. Eras sombra e luz só por aqueles instantes face ao rodopio de lembranças despertas pelas partículas de pó sacudidas do passado. Foste. E não há amanhã contigo.

Monday, February 19, 2007

Tu

Ensinas-me a ser. A respirar. A levantar voo mesmo com asas feridas e pesos de dores antigas nas minhas costas. E eu levanto-me e nem te agradeço o oxigénio que me permites respirar em mundo de negro monóxido que me fere os pulmões. Não é por mera indiferença, nem sequer por ingratidão egoísta, porque jamais soube vestir-me de estados tão frios de alma. Simplesmente, não consigo olhar-te. Nem mesmo quando me deito a teu lado na penumbra da nossa história, escrita a dois soluços desencontrados do tempo. Sinto-te apenas e não ouso querer mais do que isso. Aprendo-te assim, neste silêncio que une as arestas do nosso mundo quadrilátero, sem questionar a tua ausência quando não estás e sem te abraçar na presença difícil dos momentos. Sei-te apenas. Basta isso para conseguir ser melhor, para fortalecer esta minha fraqueza que se desfaz em lágrimas e ergue medos em meu redor. E ao saber-te não preciso de mais nada, nem de outros sorrisos, nem de outros abraços, nem de conquistas fáceis que invertem o sentido da essencialidade da verdade.

Thursday, January 11, 2007

Solidão na liberdade

Fui adormecendo embalada pelo ritmo cardíaco do teu coração e das tuas palavras incessantes. Mesmo envolta numa sonolência a que não conseguia resistir, as tuas últimas palavras ainda faziam eco no seio do meu entendimento interior sobre o seu significado. Senti uma vontade de chorar iminente porque o afastamento do amor por ti defendido funcionou como lâmina aterrada no meu coração e fez-me sentir uma dor imensa a invadir-me todos os recantos sensíveis do meu ser. Por um lado, acho que chegava a admirar a tua força, o teu desprendimento, a tua coragem de ser livre, mas, noutras alturas, sabia-te longe de mim, porque, conhecendo-me, experimentava uma forte incapacidade de te seguir nesse caminho de liberdade. Não senti, porém, rancor. No momento imediato antes de adormecer descobri apenas que não era amor o que nos unia. Era uma necessidade biológica, física, que ousava ser extenuante apenas para não deixar espaço livre para questionarmos o nada que nos envolvia como manta fina de ilusão perdida. E a solidão de que falavas seria, a partir daquele momento, a tábua de salvação do meu mundo interior, que se agitava em convulsões de dúvidas permanentes sobre se era ou não derrota aquilo que experimentava. A solidão, condição necessária para se ser livre, como me disseste, passaria a ser a minha única companhia na incessante procura da minha verdade pessoal

Thursday, November 09, 2006

«Escrever é soprar vida em objectos mortos.»
António Lobo Antunes

Tuesday, November 07, 2006

Falta-me...

O ar. De todas as vezes que me sinto escorregar na incerteza do real, vestimenta de tantos sonhos. Entro em pânico. Sempre que sinto esta incapacidade de olhar em frente e este sentimento tentador que tem sabor a desistência. Fecho os olhos. Inspiro e expiro o nervosismo que pulsa cá dentro. E se voltasse para trás, agora que ninguém daria por isso? Fraqueza, som que vem de dentro, de um qualquer canto recôndito da alma adormecida. Fraqueza. É precisamente o som que não queria admitir como melodia constante nos meus dias. E se fosse em frente, devagarinho, sem dizer a ninguém? Avançaria passo a passo, evitando os caminhos ruidosos da publicidade involuntária, e tentaria, chegada ao futuro, resolver estes destinos que não se determinam. Medo, tentáculos que enlaçam os meus movimentos e me impedem de avançar. Medo. De que todas as coisas que sempre alimentei com uma crença quase inabalável acabem simplesmente esquecidas e derrotadas. Falta-me o ar. E sinto-me escorregar na incerteza do que construo. Entro em pânico. Fecho os olhos. Fraqueza. Medo. É possível voltar atrás sem que me persiga este sentimento de desistência cobarde que hoje me assola o pensar?

Thursday, October 19, 2006

"Ao mergulhar, o mar entrou-lhe de roldão no pensamento e deslocou-lhe os sentimentos para uma zona de tal modo abstracta e afastada de qualquer tipo de emoção, que por momentos deu duas ou três braçadas num plano de si mesmo a que jamais tivera acesso e que, por muito pouco democrático desígnio da natureza, lhe pareceu que até então estivera reservado a deus. Fruto de alguns segundos, que cada poro do seu corpo registou de maneira diferente, acrescentando-lhe ao que acima se descreve uma sensação de elasticidade cronológica de que se lhe afiguraram pouco dignos os seus órgãos, esta experiência foi interrompida por um regresso à superfície que lhe devolveu a presença do areal e dos rochedos a que naquele instante a aragem insuflava uma realidade disjuntiva."
Luís Miguel Nava in O CÉU SOB AS ENTRANHAS (1989)

É como me sinto hoje, inundada de mar…

Wednesday, October 04, 2006

O Passado Sempre Presente

Com uma monumentalidade esmagadora que se prolonga no infinito do céu, ergue-se a cúpula, sólida e majestosa, que mais parece proferir uma bênção a todos os homens e mulheres que por ali meditam, num silêncio arrebatador.
A fachada é coroada por um frontão triangular abraçado por duas torres sineiras com relógios, onde se salpicam ordenamente estátuas monumentais e figurações relevadas alusivas ao mistério do Sagrado Coração de Jesus.
Não me detive nos passos, agora comandados pelo espírito, esqueci-me das horas que atrapalham o tempo dos homens e deixei-me mergulhar naquele espaço onde matéria e espírito se misturam harmoniosamente.
A nobreza dos materiais que ornamentam o silêncio daquele lugar dota o espaço de uma sobriedade quase perfeita. Ao fundo, a tela A Ceia, de Pompeo Battoni. No transepto direito, o túmulo estilo império de D. Maria I.
Impressionante como os pequenos detalhes invisíveis ao olhar superficial saltam agora à vista como sinais de devoção profunda. Já lá tinha entrado umas poucas vezes mas foi a primeira vez que interiorizei verdadeiramente a beleza firme e séria da Basílica da Estrela.
Invadindo o silêncio do momento, avança sobre mim uma senhora delicada com uma brochura da Basílica na mão questionando-me sobre a vontade de participar na visita guiada que se iniciaria dentro de alguns momentos. Agradeci o folheto com moderado interesse, com um movimento ainda embalsamado pelo relaxamento de espírito que experimentava, e recusei distraidamente a participação na visita. A senhora afastou-se com um sorriso e, enquanto a mesma se dirigia já a um casal que se preparava para tirar uma fotografia à nave central, aproveitei para me sentar uns minutos nos assentos de madeira enfileirados no corredor lateral direito. O folheto apresentava na parte de cima uma fotografia admirável da fachada principal da Basílica, que é densificada pela informação histórica escrita mais abaixo. Aí se diz que a Basílica nasceu da devoção da princesa herdeira D. Maria, futura rainha D. Maria I, que fez um voto no dia do seu casamento de que, no caso de ter um filho varão, que veio a nascer em 1761, procederia à construção de um convento para as religiosas Carmelitas Descalças.
Envolta num silêncio vertiginoso e irrecusável, demorei-me a sentir toda a história presa nas pedras erguidas pela força daquela devoção originária, quase embrenhada nos abismos da vida espiritual, até ao momento em que a hora presente me obrigou a retornar aos minutos apressados que só atrapalham o tempo dos homens...

Tuesday, September 05, 2006

Disse-te adeus e morri

Sempre. Entendimentos desencontrados do real que cerca a nossa visão. Da diferença, antes invisível, brota pequenina a mágoa constante que se aperfeiçoa com o passar do tempo e engrandece a dor com que se alimenta. Desapareces-me intermitente do horizonte do meu globo ocular, enquanto pisco insistente os olhos na esperança que a névoa que te acolhe se desvaneça no ar. Mas não, não te alcanço. Tenho comigo as palavras presentes que significam o contrário do significado dos teus passos. Elas não são mais verdade no meu coração. São meras palavras, pequenas demais, insuficientes para me abraçar na solidão que me ofereces. Olho para o corredor que se afunila nas minhas costas. Pensei que voltasses. Esta frase dita assim, timidamente, soa trémula, vibra no vazio e denuncia a tristeza pintada nos quadros que decoram o espaço. Engraçado. Antes não compreendia aqueles desenhos abstractos, despejados sem sentido naquelas telas. Hoje sinto que aqueles traços escondem um desencanto quase mágico. Mais ou menos o que hoje descubro. A magia revoltada por um desencanto viril e cruel. Baixo o rosto para apanhar uma lágrima que quase me escapa e tento com ela apagar a contradição sanguínea que as tuas palavras encerram. Quero deixar-te ir, agora que foste. E digo-te adeus.

Wednesday, August 23, 2006

Nunca te perdi

Hoje, doem-me a saudade e a morte lenta dos sentidos que a ausência traz.
Senti-te flutuar junto do meu espaço momentos antes de acordar. Sabia que se abrisse os meus olhos a vibração do teu sorriso se esfumaria na pressa do tempo real. Por isso, mantive-me estática, com os olhos afogados na almofada. Só a sentir-te. Sorrias pacientemente, com olhos doces de saudade, enquanto me afagavas o cabelo com a paixão de outrora. Sopraste-me um beijo de despedida ao ouvido, com palavras de vida. E deixaste-me inerte, ainda de olhos cerrados, com um arrepio permanente que ainda percorre todos os nervos do meu corpo e me impede de te deixar de pensar.
Trago-te em mim em cada lágrima que cai vagarosa na tua voz escrita nas linhas do passado, sinto-te no silêncio que tanto quero agarrar em mim, és a luz que me desperta para a vida e por trás dos meus olhos é a tua imagem que me alimenta a força de ser forte.
Hoje revisitei todos os teus lugares, os sorrisos, os abraços, toda a ternura e cumplicidade construídas nos laços que a vida nos dá. As cores da tua presença preenchem a dor que hoje é profunda e apaziguam este choro ferido de te saber longe.
Amanhã, mesmo antes de acordar, vou embrulhar-me quieta nos lençóis, à tua espera. E depois. E em todos os dias da minha vida…

Thursday, August 17, 2006

Não consigo sentir a tua falta.
És imagem morta nos registos da minha memória e mesmo assim, desfalecida, cansas-me. Só a ideia da tua presença ou o som ficcionado da tua voz fatigam-me.
Não queria que fosse assim. Mas no meu mundo construído de verdade não cabem as chantagens tenebrosas que ainda tens coragem de insinuar, nem os teus delírios insanos, angústias dramáticas que alimentas com lágrimas e sangue alheio.
Conseguisses tu sentir a tranquilidade daquilo que é autêntico e perceberias que aquilo que sentes em relação aos outros mais não é do que uma pobre projecção do vazio que em ti vive.
Sujas as crenças dos que desiludes, sugas tudo aquilo que é cor e verdade, disfarças sorrisos e lágrimas, esfaqueias o coração de quem por ti passa e esperas sair impune apenas com uma trémula aparição em realidades que não te pertencem. Desta vez, porém, apesar de a tua loucura ser credível, não vai ser assim. Não respondo com a frieza, porque não sei sê-lo, nem te dou o rancor, porque ele em mim não habita. Só te posso oferecer ajuda, ainda que no silêncio da minha inacção, mesmo que já a tenhas rejeitado, no único minuto em que ousei defender a tua existência.
Sabes? A resposta é o amor. O amor. E só o deve jurar quem o sabe cumprir.